Ela já teve uma boa vida. Viajava e calçava o melhor que havia em Lisboa. O rumo da vida mudou há uns bons anos já, mas ela não se conforma. Pior do que não se conformar é lamentar-se e achar que eu tenho que seguir as pisadas dela. Eu não sou assim... Eu dou o que tenho e faço a vida que posso. Gostaríamos, todos, de ter mais dinheiro, mas também não estaríamos satisfeitos, há sempre algum incómodo. Eu não sou como ela, eu não sou chique todos os dias. Eu adoro as minhas botas pantufa e adoro não usar maquilhagem. Esta sou eu, aquela que eu quero que as pessoas se apaixonem. Aquela que anda de costas direitas e meticulosamente arranjada é uma parte de mim que eu não quero que todos conheçam, mas sim aqueles que se apaixonaram por mim de botas pantufa e pálida. Pena isto não ser assim, simples, de explicar. É claro que depois, surge sempre a conversa da minha entrada para a moda e da minha carreira como bailarina. Acusa-se, então, os pais porque influenciaram as minhas decisões, ou então sou rotulada como desleixada porque não aguentei o Ballet. Pensamento errado! Eu quero ter uma família, quero alguém que seja sangue do meu sangue, e isso exclui, em todo o seu encanto, o ballet. E eu quero ser cardiopneumologista, e quero sê-lo pelo meu valor e não pelos meus lindos olhos verdes e porque visto o 34. Mas atenção, se a conversa fosse eu ser médica, isto mudava tudo...!E é isto, alguém que viajou pelo mundo sente-se, agora, frustrado por não conseguir sair da pequena casa onde vive.
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