"Saudade. Palavra tão intensa esta mesma e tão carregada de emoções no seu completo domínio.
Leva-te a uma loucura nostálgica, a um tempo já não teu bem longe de cada segundo real que passa ao compasso do momento ainda vivo em toda a sua realidade. Querer abraçar, recolher, tocar, cheirar, viver por inteiro e de novo aquele dado instante, lugar, pessoa ou simples sensação. Saber que está tão dentro de ti mas já tão longe...tão inacessível, guardado na cruel distância do tempo. E faz sofrer tanto! Se faz...
Enfim, que fazer se é ela quem te mantém vivo para te lembrar do valor hilariante que teve cada marco que realmente marcou e vive em ti e no tempo para a eternidade? Se ela quem dá relevo ao quão divinamente dotado és por poder registar esta preciosa vida no tempo universal infinitamente continuo em partilha com a memória e com o Universo?
É aí que Ela nasce e reside. Flore entre o marco e o quanto ele marcou. Implacável, indomável, perfeitamente imperturbável. Existe, persiste! Faz-nos sofrer... faz-nos lembrar o quanto vale a vida que vivemos apenas porque ela é única, porque ela merece o valor e registo da memória, e muito, muito mais!
Fera selvagem! Ao que parece, no final das contas, essencial a cada ser capaz de simplesmente amar e recordar sucessivamente o experienciar desse amor - instinto por este maravilhoso Real que é a vivência humana, no fundo essencial a qualquer humano diria.
Tu humano que por aqui peregrinas : "Colhe o dia, porque és ele!"! Tu mesmo, monte de tendões, veias e talento , mais um dos capazes de colar pedaços de vida no tempo. E sim, depois recorda. Não sendo algo que possas escolher enfim sofre com isso, dá valor, e prossegue, não pares, vive.
Assim foi feito e assim terá de ser andarilho. Resigna-te, pois sem Saudade serias carcaça viva sem vida.
Que este fogo frio te assalte o espírito em cada dia para que nunca te esqueças de como ele fervia no dia em que o tomaste tu mesmo como teu, nos dias em que, apercebendo-te ou não, roçaste a verdadeira felicidade."
Texto de Hugo Agostinho